O Diabo, O Arcano 15, é o Regente dessa última semana de dezembro de 2025
Sentando em seu trono e mantendo dois seres humanos, uma mulher a esquerda e um homem à direita, está O Diabo do Tarot de Rider Waite.
Esse é um dos arquétipos que eu mais gosto no Tarot, ele nos lembra, que nós seres humanos temos uma série de dogmas, leis e hábitos mentais que nos aprisionam numa vida indesejada, automática e frequentemente repetitiva e entediante.
Esse Arcano surge como regente da última semana de um ano que foi extremamente desafiador, principalmente para nós, mulheres, principalmente aqui no Brasil e nesse último mês.
Mulheres assassinadas de forma brutal e cruel, por maridos, por colegas de trabalho, por ficantes.
Eu não tenho como falar de nada, sem me lembrar dessas manas que se foram tão prematuramente, tão cruelmente, principalmente do Diabo. Não porque ele seja mal, cruel, isso é coisa do catolicismo.
Mas, porque o Diabo nos fala sobre o sentimento de posse, nos fala sobre o ciúme e do quanto estamos habituadas a confundir ciúme com amor, e a normalizar e até romantizar o ciúme. Eu recebo ás vezes perguntas de pessoas que querem saber se o outro tem ciúmes delas, como se ter ciúmes fosse um sinônimo de amor.
O Amor liberta, o ciúme, aprisiona qualquer pessoa, seja homem ou mulher a correntes que nos cegam e nos roubam o movimento, assim como se encontram essas pessoas aprisionadas pelo 15 O Diabo.
O ciúme não é algo natural no amor, nem a posse, nem o controle, nem a manipulação.
Mas a nossa sociedade normalizou o ciúme, romantizou o ciúme e quando ele não existe numa relação, o que deveria ser normal e saudável, é considerado falta de amor.
Se a gente prestar atenção as duas cartas que aqui estão, as correntes que estão presas aos pescoços dos humanos estão frouxas, o que pode dar uma sensação de liberdade irreal, o que justifica até essa normalização do ciúmes na nossa sociedade, mas as correntes estão ali, a gente não vê, mal percebe, até que tenta ir mais longe, e é impedida.
Encaramos o ciúme e a posse como coisas normais, relativizamos quando demonstrações de ciúmes acontecem, ao invés de soltarmos as correntes, olhamos pra elas a algumas vezes até nos sentimos bem com seus elos em nossos pescoços, até que um dia, eles nos esganam, nos enforcam e aí acontece o feminicídio.
Enquanto a gente não perceber as correntes sutis que nos aprisionam, vamos seguir sendo mortas, sendo cruelmente impedidas de criar nossos filhos, cuidarmos de nossos pais e vivermos.
Sei que todas estamos exaustas desse assunto, FEMINICÍDIO, eu estou, claro, óbvio, mas não posso me calar, nenhuma mulher que está viva pode, e nenhum homem consciente, deve se calar.
E O Diabo é uma carta que nos ajuda a ver essas correntes de forma muito clara.
Ele fala da posse, e uma frase tradicional dos homens que se encontram na polaridade sombria do Diabo é: SE ELA NÃO QUER SER MINHA, NÃO SERÁ DE MAIS NINGUÉM.
Fala também do controle, querendo saber com que a mulher fala, sobre o que fala, pra onde vai, com quem vai, que horas volta, e alguns se justificam dizendo que quem ama cuida, confundem controle com cuidado e aí é que mora o perigo.
E como O Diabo também nos fala da dependência emocional, nós, mulheres, acabamos comprando essa justificativa, achamos que é cuidado, atenção, mas é controle e quando não aceitamos esse controle, apanhamos, somos xingadas, empurradas, largadas no meio da rua, trancadas em casa.
Essa carta veio num momento em que é extremamente necessários falarmos sobre todos esses manipulação, pois ele é a própria manipulação.
A sutil manipulação do Diabo é, de todas as manifestações dele, a mais desafiadora com certeza.
Porque ela vem disfarçada, ela é musical, agrada aos ouvidos, assim, como a flauta de Pan, que seduz, que entorpece e controla, pois o objetivo final do Diabo é sempre o controle e a posse.
Olhe atentamente para o Diabo do Tarot Mitológico, ele não tem um chicote em suas mãos, ele toca uma flauta, e essa é uma grande chave pra gente entender os relacionamentos abusivos.
A flauta de Pan é o instrumento do encantamento, da sedução. Ela não impõe pela força bruta inicialmente; ela sussurra. A melodia que toca é perversamente familiar e confortável: "É porque te amo", "É para o seu bem", "Ninguém vai te amar como eu", "Você sem mim não é ninguém".
Essa é a essência da manipulação do Diabo. Ele nos aprisiona primeiro pela mente e pelo coração, para só depois apertar as correntes. A dependência emocional é criada por essa melodia tóxica, que confunde posse com proteção, ciúme com paixão, controle com cuidado. A vítima, encantada pela música, acredita que os elos no pescoço são colares, e que a limitação do seu movimento é um abraço.
A flauta toca para ambos os lados. Para o agressor, ela sussurra justificativas e inflama o sentimento de posse. Para a vítima, ela distorce a realidade e mina a autoestima, fazendo-a acreditar que ele a ama, que ninguém vai ama-la como ele, que ela precisa dele — por mais aprisionante que a relação seja.
O grande perigo é que, quando a melodia para, o silêncio parece insuportável. É aí que a vítima, viciada naquela dinâmica, teme mais a solidão do que as correntes. E o agressor, ao ver que a vítima tenta desafinar ou calar a flauta, troca a melodia pelo grito, pela violência, pelo ato final de posse que é o feminicídio: "Se não for minha música a tocar na sua vida, não será a música de ninguém."
Desfazer o encanto da flauta de Pan é o primeiro passo para quebrar as correntes. É questionar a melodia tóxica. É ouvir o silêncio e percebê-lo não como vazio, mas como espaço de liberdade. É entender que o amor verdadeiro não precisa de trilha sonora manipuladora; ele é uma sinfonia de respeito, onde ambos tocam seus instrumentos, livres e em harmonia, sem medo de sair de compasso.
Com essa Carta regendo a semana, não quero pretendo dar um previsão fatalista, muito menos imutável, porém extremamente necessária diante do cenário que estamos vivendo.
Infelizmente esta ainda é uma semana de potencial risco para nós mulheres, nossas red flags devem ficar hasteadas ainda e não devemos baixar a guarda em momento algum.
O Diabo não "causa" a violência; ele exacerba, desmascara e convida ao descontrole de tudo o que já está latente. Esta energia atua como um catalisador tóxico sobre:
Os sentimentos de posse e ciúme (a melodia da flauta de Pan ficando mais alta e distorcida).
As frustrações e os recalques do ano que termina.
A pressão social e familiar das festas, que para muitos lares não é celebração, mas um caldeirão de expectativas e tensões.
É uma semana em que a manipulação pode se tornar mais ousada, o controle mais apertado e, para aqueles que já estão no limite da sombra, a transição do pensamento possessivo para a ação violenta pode parecer uma "solução" distorcida. A frase sombria do arquétipo — "Se não for minha, não será de ninguém" — pode encontrar terreno fértil para se materializar.
No entanto, e isso é crucial, a mesma carta que mostra o perigo também aponta o caminho da prevenção. O Diabo é o mestre da ilusão, e a maior ilusão é achar que estamos presos sem saída. As correntes estão frouxas. A previsão mais importante que podemos fazer é: esta é a semana de ENXERGAR as correntes e de AGIR para soltá-las.
Portanto, a previsão é dupla:
Perigo: Alta probabilidade de explosões de violência baseada em posse, ciúme e controle. Um período que demanda hipervigilância coletiva.
Proteção: Oportunidade poderosa para romper encantos, denunciar manipulações e criar redes de apoio. É tempo de recusar a melodia tóxica, de checar as amigas, de não relativizar nenhum sinal. É semana de dizer "chega" aos elos mais sutis, para que eles não virem forcas.
Que esta última semana do ano não seja um fechamento trágico, mas um grito de guerra que ecoe em 2026: não nos calaremos, não nos encantaremos mais, não aceitaremos mais as correntes. A conscientização é o primeiro passo para desfazer a previsão do pior. A liberdade é uma escolha coletiva e diária.
E embora o Diabo, nesta análise, tenha sido nosso espelho para a violência de gênero, ele guarda outros segredos em sua carta: os laços com o nosso lado animal reprimido, a atração pelo 'fruto proibido' que nos tira da letargia, e a armadilha do materialismo que nos faz confundir ter com ser. São caminhos que nos levam a outras prisões e outras libertações. Mas deixo esse e outros aspectos do Diabo para serem desvendados próximo texto.
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